A mudança do software para o mundo físico
Até 2024, o avanço da inteligência artificial estava concentrado no treinamento de modelos e na compra direta de chips. As gigantes da tecnologia financiavam essa corrida com o próprio caixa. Agora, o cenário mudou. O verdadeiro gargalo da IA não é mais o código, mas a infraestrutura física: energia, refrigeração e muito concreto para construir datacenters.
Um estudo recente do economista Stijn Van Nieuwerburgh, apresentado na Brookings Institution, projeta que serão necessários US$ 10,3 trilhões em investimentos acumulados em infraestrutura de IA nos Estados Unidos entre 2025 e 2032. Para se ter uma ideia da magnitude, isso representa uma média anual de 3,63% do PIB americano, superando ciclos históricos como a construção das ferrovias no século XIX (2,24%) e o boom das telecomunicações (1,10%).
A engenharia financeira por trás dos datacenters
Para sustentar esse nível colossal de gastos, o financiamento está migrando dos balanços transparentes das big techs para o mercado de crédito privado e joint ventures. Apenas entre janeiro e julho de 2026, o setor privado já desembolsou US$ 37 bilhões na construção de datacenters nos EUA, um aumento de US$ 9 bilhões em relação ao ano anterior, segundo o Departamento de Comércio americano.
- US$ 10,3 trilhões: projeção de investimento acumulado até 2032.
- 3,63%: fatia média anual do PIB dos EUA destinada a essa infraestrutura.
- US$ 37 bilhões: valor real gasto na construção de datacenters nos EUA no primeiro semestre de 2026.
O risco da bolha de capacidade
Apesar do otimismo de alguns setores, há alertas severos sobre a sustentabilidade desse modelo. Aswath Damodaran, professor da NYU conhecido como o 'reitor de valuation', aponta que para justificar US$ 10 trilhões em infraestrutura, a IA precisaria gerar entre US$ 8 e 10 trilhões em receita real. Ele considera esse cenário 'no limite do plausível', alertando para o risco de uma bolha de superinvestimento sem demanda real que a sustente.
A IA deixou de ser um ciclo de software para se tornar o maior ciclo de infraestrutura física da história, exigindo uma engenharia financeira que aumenta o risco sistêmico.
O que isso muda para a sua empresa
Para líderes de tecnologia e negócios no Brasil, essa corrida trilionária tem consequências imediatas. A demanda massiva por semicondutores e componentes de armazenamento já pressiona os preços globais. Na prática, sua empresa pagará mais caro por hardware, servidores e serviços de nuvem nos próximos anos.
Por outro lado, como a IA esbarra no limite energético global, países com matriz energética limpa e potencial de expansão, como o Brasil, podem atrair parte desses investimentos. No entanto, enquanto a infraestrutura permanecer concentrada no exterior, a dependência e o custo atrelado ao dólar continuarão sendo desafios significativos para o orçamento de TI local.
Pauta originalmente destacada pela newsletter TechDrops, apurada e desenvolvida pela equipe Neurora.